Queridos amigos
Estamos a mais de uma semana em Recife. Montar a estrutura do Rito de Passagem no Marco Zero, no coração da cidade, foi um desafio e tanto. Uma arquibancada coberta, um palco em terra batida, todo equipamento de som e luz...
A praça do Marco Zero é tombada e a Prefeitura colocou muitos obstáculos até nos permitir realizar ali nosso evento. Tentaram nos convencer a fazer o Rito em outro lugar. Mas não havia outro lugar. O coração tinha batido pelo Marco Zero. Era ali. Nossos espíritos protetores estão sempre trabalhando para que as coisas aconteçam como devem acontecer... e conseguimos a liberação do Marco Zero.
Só que as restrições e exigências colocadas pela Prefeitura eram muitas e tivemos que ir adaptando nosso plano ideal à realidade local. Ficamos com uma arena menor do que a de costume, mas isso aproximou o público das apresentações e o resultado foi ótimo. A terra para o palco é sempre um ponto delicado, que exige muita atenção da produção. Foram 3 caminhões de terra, mais de 30 metros cúbicos socados até se transformarem num pátio de aldeia. Depois das plantas colocadas ao fundo, da terra arrumada, com a iluminação e o cenário magnífico do mar ao fundo quem entrava na arquibancada se sentia transportado, como um toque de mágica, para um outro lugar, muito distante do burburinho da cidade do Recife.
Na noite de sexta feira, os Pankararu tomaram o pátio do Rito de Passagem com seus "encantados". Homens cobertos por máscaras de palha e enfeites de tecido colorido que incorporam os espíritos e dançam em reverência ao Criador.
Os encantados percorriam todo o terreiro do Rito com a dança forte que vem dos ancestrais e as vozes numa língua que ficou na memória somente dos cantos e se perdeu no dia a dia. A voz das três mulheres, Dôra e Aruana e Josivete, mãe e filha unidas no caminho espiritual, se destacava no coletivo e fazia o público arrepiar pela intensidade e verdade dos cantos.
Depois dos Pankararu entram no pátio os Fulni-ô com o Toré e suas buzinas, com coreografias sofisticadas e o canto forte das mulheres e homens. Um grupo de jovens representou o povo Fulni-ô que está desde setembro na reclusão da cerimônia espiritual do Ouricuri. Para nós, do IDETI, foi uma honra contar com a presença dos Fulni-ô que abriram uma exceção ao projeto Rito de Passagem e permitiram a saída desse grupo de cantores.
Um público de mais de 500 pessoas esteve na Marco Zero para o primeiro dia do Rito e se emocionou com as as cerimônias dos povos de Pernambuco. No final, representantes de cada um dos povos tomou o microfone para falar um pouco de sua cultura e realidade e no final todos se juntaram ao público para uma grande festa que só terminou quase 11 horas da noite.
São Pedro deu sua contribuição, afastando as chuvas e vento forte que nos acompanharam nos dois dias de montagem de estruturas. A noite de céu aberto e estrelas foi perfeita para os rituais.
No sábado o pátio de transformou para receber o povo Xavante, com suas máscaras de palha nos suportes no fundo do palco. A fogueira tradicional no centro da dança não pode ser montada por causa do forte vento que sopra todo o tempo no Marco Zero.
Como sempre, a força dos Xavante impressionou a todos os presentes. O vigor dos cantos, a força dos pés batendo na terra, a beleza das pinturas corporais que são feitas na frente do público, tudo isso causou emoção e ao final muitas pessoas no público e mesmo na equipe de produção estavam chorando. Cumprimos nossa missão: tocar o coração das pessoas, transformar...
Hoje, 11/11, os Mehinaku entram no terreiro e com certeza será um fechamento muito especial.
Termina também nossa exposição com as fotos de Helio Nobre que foi montada no Terminal Marítimo, ao lado do Marco Zero. No espaço da exposição, uma TV exibiu em sessões contínuas 5 vídeos mostrando a realidade de diferentes povos indígenas. O movimento e o interesse das pessoas foram grandes e a única reclamação do público é pelo curto tempo de permanência do projeto Rito de Passagem na cidade.
Talvez o Rito volte nos próximos anos para cá e temos esperança de conquistar o apoio das autoridades locais para nosso projeto que mais uma vez mostra sua grande importância. Mas conquistamos já, neste primeiro ano de Recife, o carinho, respeito e empenho de muitas pessoas maravilhosas que vestiram a camisa do Rito e entraram com todo o coração na nossa batalha para realização do projeto.
Viva o povo do Recife!!! Viva o povo indígena daqui e de todo o Brasil!
Amanhã tem mais....
Angela Pappiani
adriana @ 09:11 | | Link

O IDETI criou este BLOG para propiciar um dinamismo maior na divulgação das noticias.
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